Tema de Estudo 2026
A ética da diferença: o sujeito no laço
O tema de Estudo com Freud e Lacan em 2026 – “A ética da diferença: o sujeito no laço” – de início nos convida a revisitar os primeiros textos psicanalíticos, atentos à sua originalidade e à dissonância destes com o sistema filosófico até então prevalente no fim do século XIX. Desde “Projeto para uma psicologia científica”, Freud lançara os contornos de uma diferença ética já inscrita nos processos de construção da subjetividade – realidade psíquica – que ele próprio experimentara em sua autoanálise. Afastando-se de uma filosofia utilitarista predominante nessa época e inspirado no exercício clínico, Freud traz a necessidade de pensar a alteridade, onde o sujeito está, desde o começo da vida, enlaçado. Ao descrever a presença do Nebenmensch “como o homem ao lado”, o próximo – primeira potência auxiliar, sem a qual o pequeno ser sucumbiria em seu desamparo -, Freud inaugura um princípio ético em que o outro entra como estruturante e também como objeto, fonte de prazer e desprazer. Mais tarde Lacan irá aprimorar essas premissas conceituais e éticas, aproximando-as de uma realidade social que se transformou com o tempo, o que ele irá denominar como a necessidade de “um aprofundamento sobre o real”. [Ética p.21]
Ao estabelecer seu seminário “A ética da psicanálise” (1959/1960), já nos primeiros capítulos deste trabalho, Lacan esboça uma diferença ética fundamental extraída da experiência psicanalítica, colocando em perspectiva o que seria o desejo em relação ao prazer. O prazer, buscado como meta, encontro com a felicidade – bem supremo, presente no ethos da moral e dos costumes através do tempo desde Aristóteles, vai arrefecendo com a modernidade e no que ela comporta de idealização. Em direção contrária a esses princípios, Lacan propõe pensar a ética em relação a um juízo sobre a ação do analista e o desejo que a habita. O desejo, então atravessado pela falta e pelo mal-estar, expressaria a dimensão trágica contida nessa experiência. Para Lacan, “A ética da psicanálise não é uma especulação que incide sobre a ordenação, a arrumação do que chamo de serviço dos bens. Ela implica, propriamente falando, a dimensão que se expressa no que se chama de experiência trágica da vida”. [Ética, p. 376].
O sujeito engendrado por esta ética, no laço com o Outro, não é indiferente a Freud, muito antes de Lacan. As projeções subjetivas moebianas (mundo interno e mundo externo) testemunham, em alguns de seus textos, os laços identitários nos grupos e seus efeitos na subjetividade. Assim é que, em “Psicologia de grupo e análise do eu” [1921], Freud dirá: “ […] algo mais está envolvido na vida anímica do indivíduo como um modelo, um objeto, um auxiliar, um oponente, de maneira que, desde o começo, a psicologia individual é ao mesmo tempo psicologia social. [1983, p.91]
As reflexões descritas acima poderão enriquecer nossos trabalhos em 2026. Diante de uma sociedade de massas que se atomiza a cada dia em suas identidades e reivindicações, enlaçadas nos mais diversos anseios, perguntamo-nos: como a psicanálise poderá ouvir e acolher essas vozes?
Maria Barcelos de Carvalho Coelho